A notícia chegou de madrugada, na forma de telefonema curto e incrédulo. O Jorge já não está cá. Horas depois, com uma noite mal dormida pelo meio, as palavras continuam a não fazer sentido e só me vem à cabeça o facto de, como seria habitual, não o ter cumprimentado depois do ensaio de imprensa de "O Feio", na última vez que o vi. Um pensamento absurdo, muito menos que morte. Até sempre, Jorge. O teu sorriso e as estórias ficam comigo. A tua estrela brilha.
quinta-feira, setembro 24, 2009
"La Douce"
Ontem a Casa da Música recebeu a estreia mundial de "La Douce", obra do compositor Emmanuel Nunes, também responsável pela adaptação dramatúrgica do conto homónimo de Fiódor Dostoiévski (em português, "A Submissa"), classificada como teatro musical e acerca da qual o próprio escreveu qualquer coisa como (cito de cor), " a música é paisagem sonora e os actores são haupstimme", conceito musical que tomei a liberdade de traduzir por "voz principal" - apesar de ter inúmeras vezes lembrado os 11 leitores deste blogue que de música...não entendo nada. Em todo o caso, aqui deixo para os interessados, a reportagem televisiva que fizemos no dia do ensaio geral (um pequeno nada):
Reportagem exibida no Cartaz da SIC Notícias
Para quem tem curiosidade por detalhes sórdidos, diga-se que cerca de 10% dos 900 espectadores que esgotaram ontem a lotação da Sala Guilhermina Suggia, abandonaram o espectáculo antes do fim. É o que sempre digo, sem menosprezar o direito de cada um gostar ou não de uma obra de arte: fiquem em casa que o ambiente agradece e as pessoas que até querem ver os espectáculos, malgré tout, também dão o seu contributo para o bom ambiente ao reduzirem substancialmente os seus instintos assassinos.
Só para terminar uma nota: das 3 vezes que tive oportunidade de assistir a espectáculos com obras de Emmanuel Nunes não pude deixar de comover-me com a emoção que transborda das pessoas que absolutamente o adoram e é uma coisa assim sem explicação, sinto-me tentada a adorá-lo também.
É difícil evitar a palavra poesia quando se fala sobre os espectáculos do colectivo Circolando. Desta feita volto a utilizá-la sem complexos (aliás já o tinha feito na reportagem televisiva que está pronta para ser exibida há dois dias). Em "Mansarda", fim do ciclo chamado Poética da Casa, primeiro são os cheiros e a terra e a água e a música e há mais silêncios do que é costume. Desenterram-se as memórias do que nunca se viveu e há momentos de beleza pura. Isto acontece em minutos, porque logo logo chegam as emoções e depois só há isso. E é muito.
Há uns meses, antes de apagar os posts, tinha aqui deixado as notas que se seguem a propósito do espectáculo "Casa-Abrigo", que precedeu esta "Mansarda". Aqui ficam.
Não fora o video de abertura, bem intencionado mas tecnicamente desastroso, e Casa-Abrigo seria um espectáculo perfeito. Para quem já se cruzou com o trabalho do Circolando não é uma total surpresa, no entanto, não deixa de merecer referência a forma como as produções do grupo sempre nos surpreendem. Casa-Abrigo não é teatro, não é dança, não é novo circo, é simplesmente poesia. Ah, e os figurinos são impecáveis. Julgo saber que o espectáculo vai andar por aí mas não acredito que se encontre melhor casa para o acolher que o Mosteiro de S. Bento da Vitória.
P.S. Juro que é coincidência mas não é que o "abrigo" está de volta.
sábado, setembro 19, 2009
Reparo agora que a palavra abrigo aparece nos dois posts que antecedem este, que afinal nem sei se o é, post, quero dizer, porque abrigo é com certeza uma das minhas palavras. Passando os olhos por estes posts, rapidamente antes de "desligar", essa descoberta aparece-me como revelação. Da hora tardia, talvez, ou da merda de dia, que acabou noite clara (apesar da chuva) como poucos dias há. Uma epifania na forma de palavra, prestes a completar 41 anos de idade.
Não se pode perder porque absolutamente se ganha, a lindíssima exposição de Joana Rêgo, na Galeria Municipal de Matosinhos. De A a Z. Apaixonei-me por umas quatro ou cinco letras, sem mais nem ontem: M, J, A, T, etc. Aqui fica A.
O Senhor Bobby Robson foi o único treinador de futebol que conheci - e acreditem que já lá vão uns tantos - que cumprimentava todos - T-O-D-O-S - os jornalistas antes de iniciar as conferências de imprensa (mesmo que tivesse perdido o jogo). Um senhor, o Senhor Robson. Lamento que nunca tenha treinado o Benfica. Desportivamente falando, só me lembro de tal tristeza quando o Velho Capitão Mário Wilson nos deixou à deriva.
A planta chamada Rabinhos de Zorro*, tem, no Alentejo, um uso medicinal, travando dejecções indesejadas (leia-se diarreia). Poderão os 10 leitores deste blogue interrogar-se por que motivo terei chegado a tal conhecimento. Ao que apenas poderei responder: "Bom, isso não interessa nada".
* a.k.a. "erva-de-serrã-pastor", segundo Manuel Anastácio
Na minha praia os peixes são livres e as crianças voam como as borboletas. Na minha praia há risos e flores e chapéus de sol de todas as cores. Na minha praia as gaivotas falam francês ao fim da tarde e todas as pulgas são felizes.
Enquanto não chega o Platel vejo Philippe Decouflé dançando com as sombras. Este espectáculo é verdadeiramente contemporâneo e podia servir de lição para muita gente sobre o bom uso de "novas tecnologias" em espectáculos.
O Paulinho, aka Paulo Pimenta, O Grande, inaugurou hoje uma exposição na FNAC de Sta. Catarina. A Catarina, a Ana, o Carlos e o Pedro, aka Visões Úteis, juntaram os amigos para lhes mostrar a "nova casa", sito na Fábrica Social, aka Fundação do Escultor José Rodrigues (que só por causa dela já seria tão grande). Está tudo ligado. Até esta foto absolutamente normal que hoje o Bomba escolheu para "ambiente" do computador. Também veio com os amigos, outros, a banda, na serra de Montemuro*.
Este não é o público habitual dos espectáculos do TeCa. Há corpos magros e músculos definidos cadeira sim, cadeira não. Fechamos os olhos e vibramos, por uns segundos, com o burburinho na sala. Caem as luzes, o silêncio instala-se. Entrámos agora mesmo num lugar estranho. É colectivo Peeping Tom a abrir as portas do ciclo de dança contemporânea "Dancem!09". Estas pessoas não são feitas do mesmo material que eu. Dancem, vá!
Uma luz na escuridão (post dedicado aos 23 visitantes de Elsinore)
Abertura-Fantasia Romeu e Julieta de Piotr Tchaikovski (final)
ROMEO Let me be ta'en, let me be put to death; I am content, so thou wilt have it so. I'll say yon grey is not the morning's eye, 'Tis but the pale reflex of Cynthia's brow; Nor that is not the lark, whose notes do beat The vaulty heaven so high above our heads: I have more care to stay than will to go: Come, death, and welcome! Juliet wills it so. How is't, my soul? let's talk; it is not day.
JULIET It is, it is: hie hence, be gone, away! It is the lark that sings so out of tune, Straining harsh discords and unpleasing sharps. Some say the lark makes sweet division; This doth not so, for she divideth us: Some say the lark and loathed toad change eyes, O, now I would they had changed voices too! Since arm from arm that voice doth us affray, Hunting thee hence with hunt's-up to the day, O, now be gone; more light and light it grows.
ROMEO More light and light; more dark and dark our woes!
excerto do 3º Acto de "Romeu e Julieta" de William Shakespeare
quarta-feira, junho 17, 2009
Memórias alheias
Praia da Aguda, Portugal, 1972 (ano do Jogos Olímpicos de Munique)
Hesitei em voltar a casa dos meus pais. Como é que eles fazem quando chove? pensei eu. Depois lembrei-me que havia um tecto no meu quarto. "Não importa!" e, desconfiado, não quis voltar. É em vão que agora me chamam. Assobiam, assobiam na noite. Mas é em vão que utilizam o silêncio da noite parar chegar até mim. É absolutamente em vão.
"Voltar", em Antologia - Henri Michaux; Ed. Relógio d'Água; trad. Margarida Vale de Gato
"E Schopenhauer também parecia ter visitado essa província mundana e néscia quando dizia que acontece na literatura como na vida: para qualquer lado que nos voltemos, chocamos logo com a incorrigível vulgaridade da humanidade, que está em legiões em todo o lado, enchendo tudo, e sujando tudo, como as moscas no Verão, e daí a quantidade de livros maus, aquilo a que ele chamava a erva daninha."
em O Mal de Montano, VILA-MATAS, Enrique, Ed. Teorema