Escutando o sorriso dos pássaros

sexta-feira, agosto 09, 2013

Uma espécie de liberdade

(Surripiei esta imagem desconhecendo o autor. Sorry.)

No dia em que o carro não saiu da garagem e voltei a andar de transportes públicos – de Metro no caso, coisa rara – apercebi-me como é fácil esquecermos o mundo que acontece lá fora (mesmo lendo as Crónicas do Autocarro do Jorge, que a malta não acredita nada que aquilo seja verdade porque é ele tão bom escritor e tal que nunca nos passa pela cabeça que aquelas cenas não sejam ficção pura e dura e, claro, “Uma mentira mil vezes repetida”…).  É certo que em reportagem vemos de tudo mas é com outros olhos, os olhos da águia, e nem vale a pena, a este propósito, desenvolver o assunto.

Com a ajuda do estagiário Rui faço-me à aventura - que eu sou uma rapariga muito desembaraçada mas só em circunstâncias particulares – quero dizer, verifico as zonas, carrego e valido o “Andante” , cumprindo todas essas tarefas de extrema complexidade.

A meio da minha viagem, aí por volta da estação das Sete Bicas, eis que a agitação se instala: ouvem-se gritos de “ai o miúdo” e, por momentos, dá a ideia que alguém ficou preso na porta da carruagem. Depois percebe-se que não. Neste preciso instante, há um miúdo que se solta da supervisão do vigilante e corre aflito ao longo da plataforma. Cá dentro a mãe guna e as duas amigas mais gunas que ela desatam aos gritos em direção à cabine do motorista, “para isto”, “ai não para, tem que parar…”, “ó, ó, pare já isto que o miúdo ficou lá fora, cara*`&”. Claro que não possível parar o Metro por dá cá aquela palha. Claro que o miúdo ficou lá fora, pois se a zelosa mãe guna entrou para a carruagem sem ligar puto ao puto e se não fosse o segurança a agarrá-lo até se podia ser magoado ou coisa assim. Esta é a opinião do rapaz brasileiro que esteve muito calado até o incidente acontecer. Eu concordo com tudo. Isso e a senhora que afiança que “ela não estava a ligar nenhuma ao miúdo”. Também concordo. De repente, está quebrado o silêncio das sextas-feiras tristes de regresso a casa - que não é para todos que as sextas-feiras são sinónimo de passageira felicidade - e toda a gente tem algo a dizer.

As gunas já tinham saído e entrado no Metro que circulava em sentido contrário. Tudo em menos de 5 minutos. “Teve sorte que não foi no Brasil, que nunca mais o via”, diz o rapaz brasileiro numa gorada manobra de autoconvencimento. “É verdade, eu amo o meu país mas é verdade”, acrescenta enquanto pensa que segunda-feira tem que estar na obra às sete da manhã.

O puto, por esta hora, está a apanhar uns tabefes, tipo “não sabias entrar com nós, cara*&$#”?! Para a próxima ficas em casa.

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